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Reporte de Sessão

Stonetop – Sessão 2

O grupo se reuniu cedo para organizar os preparativos antes de adentrar a Grande Floresta. Ira recolheu o saquinho de bugigangas de Sara — encontrado em sua horta após o ataque dos Crinwin — para que seus cães, Alecrim, Tomilho e Sálvia, pudessem farejar o rastro da menina desaparecida. Mantas e capas foram separadas com cuidado, pois todos sabiam que a noite esfriaria bastante caso precisassem dormir na mata. A jornada prometia ser perigosa: havia o risco de se perder, a ameaça constante dos Crinwin e a travessia de um rio antes mesmo de chegar à floresta propriamente dita.

Sara, aprendiz-sacerdotisa de Danu

Ao chegarem ao rio próximo a Stonetop, o grupo se deparou com uma neblina persistente e estranha que pairava sobre a água mesmo já sendo manhã. Ira e Luna decidiram tirar os sapatos e parte das roupas, carregando tudo acima da cabeça para atravessar sem molhar seus pertences. Homero, com a teimosia característica de um homem acostumado a não recuar, atravessou completamente vestido, com botas e calças de couro encharcadas. Ele passou boa parte do caminho seguinte desconfortável e mal-humorado, pagando o preço pela sua obstinação.

Já dentro da Grande Floresta, os sons da primavera preenchiam o ar — pássaros, insetos e as primeiras cigarras ao fundo. Os cães de Ira iam à frente, farejando o saquinho de bugigangas de tempos em tempos, mas logo começaram a cheirar o alto das árvores em vez do chão. Ira se lembrou do aviso que havia recebido de um espírito da floresta: glifos arranhados por garras em uma árvore antiga, seiva negra escorrendo do tronco e um alerta de que a ameaça poderia vir de cima, não apenas das raízes. A floresta estava guardando seus segredos nas copas, não no solo.

A confirmação veio de forma abrupta quando uma silhueta se moveu rapidamente pelos galhos acima deles, ágil como um macaco, e arremessou um jarro de barro que se despedaçou ao atingir o chão. O grupo partiu em perseguição, com os cães latindo e todos correndo por baixo das copas enquanto a criatura saltava de galho em galho com velocidade antinatural. Após alguns minutos de correria, o barulho cessou e a sombra desapareceu na densa folhagem. Luna ficou para trás por alguns instantes para examinar os cacos do jarro, notando que a cerâmica era idêntica à produzida em Stonetop, e guardou um pedaço maior para analisar depois.

Crinwin, arte de Lucie Arnoux

Para tentar entender o que havia passado por ali, Ira decidiu escalar uma das árvores altas da floresta. Luna serviu de apoio, abaixando-se para que Ira pisasse em suas costas e alcançasse os primeiros galhos. No topo, Ira encontrou marcas profundas de garras nos galhos — sinais claros de que algo com mãos preênseis havia passado por ali. Ela também se deparou com um enorme vespeiro próximo, cujas vespas estavam calmas por enquanto, e desceu com muito cuidado para não perturbá-las.

O grupo retomou o caminho seguindo a direção indicada pelas marcas, mas logo a floresta ficou estranhamente silenciosa. Foi Luna quem primeiro avistou uma árvore centenária tombada, oca por dentro, cujo interior escuro estava repleto de fungos, raízes e um cheiro forte de mofo — como um altar natural da floresta. Homero insistiu em continuar, mas Luna percebeu uma pedra no interior da árvore com marcações que chamaram sua atenção. Ira tentou convencê-la a não se separar do grupo, mas Luna, com um sorriso confiante, acabou convencendo a companheira de que era capaz de se cuidar sozinha.

The Great Forest, arte de Lucie Arnoux

Sozinha no interior escuro e abafado da árvore oca, Luna se aproximou da pedra e ficou paralisada: a runa entalhada nela era idêntica à do seu colar. Ambos começaram a brilhar intensamente em azul, e feixes de luz azulada emanaram da pedra, apontando para uma direção completamente diferente da trilha que o grupo estava seguindo. Luna pegou a pedra pesada com as duas mãos, e no instante em que a removeu do altar, o brilho e os feixes de luz desapareceram. Ela enfiou a pedra na mochila e correu para alcançar seus companheiros, ofegante mas determinada.

Quando Luna finalmente reencontrou o grupo, Homero mal conseguia esconder sua irritação. Ele parou no meio do caminho e, com voz grave e contida, evocou o nome de Vitor — um homem que havia morrido protegendo Luna em uma expedição anterior, deixando um filho chamado Gael para trás. Homero disse que falava o nome de Vitor todos os dias para não esquecer, e que temia que aquele sacrifício tivesse sido em vão caso Luna continuasse jogando a própria vida fora atrás de pedras e curiosidades. Ira tentou mediar o conflito, defendendo Luna com calma, e o grupo seguiu em frente com o peso daquelas palavras no ar.

Os cães voltaram a farejar com determinação e conduziram o grupo até uma clareira onde uma ruína antiga dos Makers estava semi-enterrada na floresta — um cubo de pedra enorme com uma das paredes ruídas, mergulhado em sombras densas. De dentro vinha uma voz fininha e distorcida pedindo socorro, como se viesse de dentro de um buraco. Ira ordenou que seus cães ficassem para trás e se esgueirou pelas árvores para se aproximar sem ser vista, enquanto Homero e Hilde avançavam de forma ostensiva com armas em riste para atrair a atenção de possíveis ameaças. Luna os seguia alguns passos atrás, observando as paredes de pedra com olhos atentos.

Dentro da ruína, uma figura estava pendurada no teto a cerca de dois metros de altura, envolta em uma substância cinzenta e espessa que lembrava papel de vespeiro, com braços e pernas completamente presos. Ira chamou pelo nome de Sara, mas a voz que respondia soava estranha, distorcida — e um mau pressentimento tomou conta dela. Antes que pudessem agir com cautela, Homero e Hilde pisaram em uma armadilha de fosso camuflada com folhas e galhos podres, revelando um buraco fundo com espetos de madeira afiados por dentes de criaturas no fundo. Homero conseguiu se agarrar à borda com a ajuda de Hilde, evitando a queda, mas nesse momento cinco Crinwin surgiram das sombras ao redor — criaturas humanoides com rostos que lembravam caveiras pela ausência de cartilagem nasal, sorrisos repletos de dentes brancos e afiados, e garras longas e escuras.

O combate foi caótico e intenso. Um dos Crinwin saltou diretamente em direção a Luna, mas Ira se jogou na frente, bloqueando o ataque com seu cajado e golpeando a criatura com tanta força que ela foi arremessada para dentro do fosso. Hilde, ainda inexperiente, tentou lutar com sua lança ao lado de Homero, mas acabou sendo ferido por um contra-ataque rápido de um dos Crinwin, que se movia com saltos antinatural e ágeis. Os cães Alecrim, Tomilho e Sálvia atacaram ferozmente, dilacerando um dos inimigos, embora Alecrim saísse da luta com um ferimento. Luna usou sua lança longa para perfurar o peito de um Crinwin pelas costas, recebendo um arranhão no braço como resposta.

Com quatro dos cinco Crinwin mortos ou caídos no fosso, o último sobrevivente escalou as paredes da ruína como um esquilo e começou a morder o cipó que sustentava Sara sobre o abismo com espetos. Hilde sacou seu arco e disparou uma flecha que atingiu as costas da criatura, mas não foi suficiente para detê-la completamente. O cipó estava prestes a ceder. Ira se posicionou rapidamente, abaixando-se para servir de apoio, e Homero pisou em suas costas, saltou com tudo que tinha e agarrou Sara no exato momento em que a corda foi cortada. O Crinwin perdeu o equilíbrio e caiu no fosso, sendo empalado nas próprias estacas que havia preparado para os outros.

Ao remover a substância cinzenta do rosto de Sara, o grupo teve uma revelação perturbadora: a voz que pedia socorro nunca havia sido dela. Sara estava amordaçada desde o início — eram os próprios Crinwin que imitavam a voz de uma criança para atrair as vítimas para a armadilha. Sara estava assustada, coberta de hematomas e arranhões, mas sem ferimentos graves. Um dos Crinwin que lutava contra os cães fugiu para a floresta durante o combate, e ao examinar os corpos dos mortos, Luna notou que o sangue deles era quase preto e que os cadáveres esfriavam rapidamente, como se já estivessem mortos há muito tempo. Homero encontrou uma faca de metal presa à cintura de um dos Crinwin, com o brasão de uma garra entalhado no punho — o símbolo de um bando mercenário conhecido como Os Garras — e a guardou discretamente, sem comentar nada.

No caminho de volta, Sara foi contando o que havia acontecido. Ela disse que as criaturas ficavam apontando para Stonetop e repetindo um nome: Théo. Luna ficou paralisada ao ouvir aquilo. Théo era seu amigo desaparecido havia anos, e a ideia de que aquelas criaturas da floresta conheciam esse nome a perturbou profundamente. O grupo retornou a Stonetop em silêncio pesado, recebido com gratidão pelos moradores e pelos líderes da vila. A anciã Janis, com seus setenta anos de experiência, declarou nunca ter visto os Crinwin tão astutos e audaciosos — algo estava diferente, e todos sentiam isso.

Théo, amigo desaparecido de Luna

Naquela noite, Luna foi conversar com sua avó Celeste. Ela contou tudo: a inteligência atípica dos Crinwin, a armadilha elaborada, e o nome de Théo repetido pelas criaturas enquanto apontavam para a cidade. O fogo da lareira bruxuleou quando Celeste ouviu o nome do rapaz desaparecido, e as sombras dançaram pelas paredes. A velha mulher compartilhou histórias da antiga teodotisa Ingrid, que dizia que os Crinwin eram apenas soldados tolos — mas que, às vezes, uma inteligência maligna das profundezas da floresta era capaz de fazê-los realizar ações muito mais elaboradas e cruéis. Celeste concluiu que os Crinwin não falam por conta própria; eles apenas repetem o que ouviram de outra fonte — e alguém, ou algo, havia ensinado o nome de Théo a eles. Ao encerrar a conversa, Celeste apontou discretamente para o armário onde a Pedra da Mente estava guardada, sugerindo sem palavras que Luna precisaria de respostas que só aquele artefato poderia oferecer.

Por Daniel Anand

Daniel Anand, engenheiro, pai de gêmeas e velho da Internet. Seu primeiro de RPG foi o GURPS Módulo Básico, 3a edição, 1994. De lá para cá, jogou e mestrou um pouco de tudo, incluindo AD&D, Star Wars d6, Call of Chuthulu, Vampire, GURPS, Werewolf, DC Comics (MEGS), D&D 3-4-5e, d20 Modern, Star Wars d20, Marvel Superheroes, Dragonlance SAGA, Startrek, Alternity, Dread, Ars Magica, 13th Age e atualmente mestro Pathfinder 2E. @dsaraujo no twitter

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