A manhã em Stonetop começou mais fria e silenciosa do que o habitual. Homero acordou tarde e, ao observar os moradores, percebeu uma inquietação sutil nos seus rostos — uma neblina estranha estava se acumulando nas margens da Grande Floresta, densa e fora de época. Ele viu Lívia conduzindo uma fila de crianças de mãos dadas em direção ao pavilhão central, e seu coração se alegrou com a cena. Havia algo na maneira como ela olhava para as crianças e se divertia com as risadas delas que ele admirava profundamente, invejando aquela capacidade de encontrar alegria nas coisas simples da vida.

Enquanto isso, Ira estava subindo o caminho de volta para Stonetop quando encontrou Robin. A sacerdotisa tentou alertá-la sobre os espíritos alvoroçados na floresta e sobre a neblina que não deveria estar ali naquela época do ano, mas Robin a recebeu com ceticismo, dizendo que os espíritos de Ira sempre estavam com mensagens estranhas. Quando Robin quis descer sozinha até a cabana de Ira para buscar uma coleira que havia feito para o cachorro Tomilho, a sacerdotisa insistiu para que ela não fosse. Robin acabou cedendo e subindo junto, mas ficou de braços cruzados e com pouca conversa, claramente ofendida com a insistência de Ira.
A tranquilidade da manhã foi interrompida por gritos desesperados vindo da direção da floresta. Três caçadores chegaram correndo e ofegantes à vila — Martim entre eles, carregando Leopoldo, que estava com um corte profundo e sangrando na perna. Martim relatou, ainda tremendo, que haviam sido atacados por criaturas que saltaram das árvores a apenas trinta minutos de caminhada da cidade, algo que nunca havia acontecido antes na memória de ninguém. A multidão se aglomerou ao redor deles, e foi então que a Anciã Janis tomou a palavra com sua voz fraca, mas imponente, silenciando todo o murmurinho: ela confirmou que nunca havia visto os Crinwin tão audaciosos e tão perto de Stonetop. No meio da multidão, a avó de Luna, Celeste, anunciou ter visto uma aparição na Grande Pedra na noite anterior, gerando reações mistas — alguns moradores faziam sinais de proteção enquanto outros a chamavam de louca.

Homero tomou as rédeas da situação, propondo reforçar as patrulhas e as torres de vigia e evitar a floresta por um ou dois dias antes de retomar as caçadas em grupos maiores e mais protegidos. Ira compartilhou o que sabia sobre os Crinwin, estabelecendo que as criaturas eram predominantemente noturnas, o que tornava o ataque durante o dia ainda mais alarmante. Foi então que Lívia apareceu entre a multidão, desesperada, procurando pela pequena Sara em todos os cantos da vila sem encontrá-la. Robin, pálida, revelou que havia comentado com a menina sobre a coleira esquecida na cabana de Ira, e que Sara provavelmente havia descido sozinha até a borda da floresta para buscá-la.
Ira desceu correndo até sua cabana e encontrou um cenário perturbador. A horta estava completamente destruída, com as alfacinhas jogadas para os lados e marcas profundas no chão indicando que algo havia sido arrastado. No caminho, ela encontrou a bolsinha de bugigangas de Sara jogada num canto — a menina jamais a deixaria para trás voluntariamente. Ira voltou para contar aos demais o que havia encontrado, e a confirmação do sequestro caiu sobre o grupo como uma pedra. Hilde, o irmão mais velho de Sara, se juntou imediatamente à expedição de resgate, e Luna se voluntariou para ir junto. Homero, lembrando da promessa que havia feito a Otto de proteger Luna, decidiu acompanhar o grupo sem hesitar.

O grupo se preparou rapidamente para a jornada. Homero vestiu sua armadura e pegou seu escudo e espada, pronto para um possível confronto com os Crinwin. Ira preparou seus cachorros e seu sachê sagrado, enquanto Luna reuniu seus talismãs e parafernália mística, incluindo a poderosa pedra que carregava no pescoço — uma gema azul fosca que havia encontrado nas ruínas dos Makers tempos atrás. Com os cachorros de Ira farejando o rastro de Sara, o grupo adentrou a Grande Floresta.
O que os esperava dentro da mata era perturbador. Não havia canto de pássaros, não havia esquilos subindo nas árvores, não havia qualquer sinal de vida animal — apenas um silêncio antinatural que pesava sobre o grupo como uma mortalha. Ira, familiarizada com a floresta, percebeu que a folhagem estava estranhamente seca para o início da primavera, como se algo tivesse sugado a vida da vegetação, e que os galhos rangiam de forma sinistra mesmo sem qualquer vento. Conforme o grupo avançava, pedras espalhadas no chão começaram a aparecer — características das antigas construções dos Makers —, indicando que estavam se aproximando das ruínas. Foi então que Luna olhou para baixo e viu que o talismã de pedra azul no seu pescoço, antes completamente fosco, estava brilhando e se tornando translúcido de uma forma que ela jamais havia visto antes, pulsando em resposta a algo antigo e poderoso que aguardava nas profundezas da floresta silenciosa.
